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Boriola Consultoria

Finanças para crianças
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Fazer com que os filhos pequenos aprendam noções básicas de economia, poupança, investimentos, gastos e orçamento não está nos planos de muitas famílias – mas deveria estar. Não faltam psicólogos, professores, orientadores pedagógicos, consultores financeiros e economistas que afirmem que a educação financeira deve começar bem cedo, ainda na infância. E as atitudes que podem ser tomadas pelos pais vão muito além de conceder uma mesada ao fim do mês, hábito que exige mais controle do que se possa imaginar.

Parece complicado? Embora dê trabalho, o processo de educação financeira é importantíssimo para evitar, por exemplo, futuros problemas de endividamento. "Esse processo pode durar até vinte anos e tem como objetivo preparar paulatinamente as bases para que aquela pessoa lide adequadamente com seu dinheiro na fase adulta", afirma a educadora e consultora Cássia D'Aquino.

O consultor financeiro Cláudio Boriola, presidente da Boriola Consultoria, acredita que iniciar na infância o entendimento sobre a importância do dinheiro é indispensável e deveria ser mais estimulado. "Isso por não termos, ainda, a disciplina Educação Financeira nas escolas brasileiras. É preciso, aos poucos, fazer com que os filhos participem de forma consciente sobre a elaboração do planejamento doméstico familiar", assinala Boriola, que em 2006 entregou ao MEC o projeto de inclusão da disciplina nos colégios, que agora encontra-se sob análises técnicas.

A mesada é um excelente instrumento de educação financeira. Mas não é o único. É algo chato e difícil de lidar, exige compromisso dos responsáveis. As regras de como será feito devem ficar claras e os pais precisam segui-las à risca

Para Cássia D'Aquino, os cuidados com a relação entre a criança e o dinheiro devem ter início já durante a gestação. "Antes mesmo do nascimento, os pais deveriam pensar que pontos serão levados em consideração na educação financeira do filho. Este plano inicial permite que eles se organizem, e sabemos que organização é fundamental, principalmente quando tratamos de dinheiro", afirma Cássia, autora dos livros Educação Financeira: 20 dicas para ajudar você a educar seu filho e 20 dicas para ajudar você a administrar sua mesada.


E quando podemos começar a educar os pequenos e falar de dinheiro com eles? Segundo a educadora, o momento propício é aquele em que a criança mostra que já sabe que notas e moedas servem para comprar coisas gostosas e divertidas: "Ela está pronta para aprender o valor do dinheiro quando ela aprende a pedir 'compra isso, mãe', 'compra aquilo, pai'. Geralmente, isso acontece por volta dos dois anos e meio de idade.

Parece muito cedo? Nem tanto. É claro que o objetivo não é transformar uma criancinha que mal saiu das fraldas num poupador, nem mesmo vamos esperar que ela precocemente aprenda a controlar seus trocados através de planilhas. O fato é que, atualmente, as famílias de classe média encontram-se com freqüência em situações que envolvem consumo e não podemos fugir disso. Muitos anúncios comerciais, inclusive, têm como alvo o público infantil. Por isso, a importância de se passar noções simples de finanças se torna cada vez mais urgente.

"Infelizmente, sem dinheiro não temos como sobreviver em sociedade. A vida será sempre composta por compras e vendas, esse é o ciclo que devemos ensinar aos filhos. No momento em que a família passa a elaborar um planejamento, por exemplo, deve fazer com que os mais novos participem e opinem sobre as necessidades reais das compras. Com isso, crescerão sabendo discernir o que é melhor para o bem-estar familiar", elucida Cláudio Boriola.

Mesada: dar ou não, eis a questão

A opção de dar ou não mesada parte dos pais e deve ser muito bem pensada. Cássia D'Aquino adverte que é necessário muita prudência e responsabilidade para administrar a quantia de dinheiro que será passada aos jovens. "A mesada, se bem dosada, é um excelente instrumento de educação financeira. Mas é claro que não é o único. É algo chato e difícil de lidar, pois exige compromisso dos responsáveis. As regras de como será feito devem ficar claras e os pais precisam segui-las à risca. Se acham que não vão conseguir levar a sério, melhor nem tentar", alerta. Boriola enfatiza: "Não se deve abrir exceções do que foi imposto. Gastou tudo? Ficou sem".

A forma como essa "remuneração" é encarada pela criança ou pelo adolescente também vai fazer toda a diferença na sua orientação econômica. Explicar o porquê da mesada é fundamental. A mesada não é 'premiação', nem deve ser vista como 'símbolo de status'. É bom que se esclareça que ela deve servir para dar às crianças condições de estabelecer e cumprir uma espécie de orçamento.

Quanto à idade melhor para começar a dar dinheiro para os pimpolhos administrarem, Cássia D'Aquino recomenda que seja por volta dos três anos. "A essa altura, já é possível conceder uma pequena quantia por semana, só para que se aprenda a esperar. Aliás, o ideal é dar 'semanadas' para os menores, e só passar à mesada quando completarem 11 anos", aconselha a educadora.

O valor obviamente vai depender das condições financeiras da família, mas Cássia dá uma boa dica de cálculo que dá para ser usada: "Até os 11 anos, a proporção deve ser de R$ 1 por ano de idade, por semana – ou seja, uma criança de 9 anos receberia uma 'semanada' de R$ 9. A partir dos 11, calcule a idade vezes R$ 8, por semana, e dê a quantia uma vez ao mês", calcula. Dentro desta quantia devem estar incluídos os gastos com o transporte a o lanche da escola. Aos 6 anos, a criança já planeja e se organiza melhor, então, fornecer um caderninho para que ela anote o que ganha e o que gasta é uma ótima idéia.